Gestão de Saúde e Produtividade : Proposta de um modelo para Parceria Público-Privada

O atual cenário de saúde do Brasil está muito longe do ideal. O Sistema Único de Saúde (SUS) está sobrecarregado, tendo que lutar contra altos gastos em hospitais secundários e terciários, que utilizam quase toda a verba disponível para o tratamento de alto custo das doenças crônicas (DC). Desse modo, falta dinheiro para programas de promoção de saúde e prevenção de doenças para as comunidades e postos de saúde, superlotando ainda mais as enfermarias e prontos socorros dos hospitais. Trata-se de um círculo vicioso.

As doenças crônicas (Infarto do Coração, Derrame Cerebral, Câncer, Doenças Pulmonares Obstrutivas Crônicas, Diabetes e Hipertensão Arterial, por exemplo) respondem por cerca de 60% a 80% do total de mortes/ano no Brasil. São grandes responsáveis por aposentadorias por invalidez ou licenças médicas de longo prazo, o que causam grande prejuízo na produtividade do trabalho e grande despesa para a Previdência Social e o SUS.

Os planos de saúde caíram na mesma armadilha do SUS. Por não investirem em promoção de saúde e prevenção de doenças, seus usuários acabam por seguir o mesmo caminho dos usuários do SUS, embora tenham consistente melhoria no atendimento e realização de exames, muitos exames, talvez até desnecessários. Isto encarece muito os custos de manutenção de uma operadora de saúde, o que é repassado aos seus usuários com aumento constante das mensalidades, que já são bem elevadas. Os planos de saúde já têm uma dívida, que somadas, chegam a 90 bilhões de reais em todo o país.

No panorama atual, não há comunicação ou esforço conjunto entre SUS e planos de saúde para o combate às doenças crônicas (DC), acarretando prejuízo para ambos, para o sistema previdenciário e para o Brasil.

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Já sabemos, através de estudos da Organização Mundial de Saúde (OMS) que 80% dos Infartos do Coração, Derrames Cerebrais e Diabetes podem ser prevenidos, bem como 40% dos casos de Câncer. Então, por quais motivos não há um esforço conjunto entre o Ministério da Saúde e o sistema privado (planos de saúde e empresas) para a prevenção e detecção precoce de tais doenças? Realmente é difícil de entender.

Em 2005/2006, a Agência Nacional de Saúde Suplementar (ANS) lançou um programa de promoção de saúde e prevenção de doenças para serem seguidos pelos planos de saúde. Em troca, as operadoras de saúde que aderissem a tal programa, teriam uma redução no valor da reserva garantidora de benefício, uma espécie de poupança depositada em juízo por cada operadora, que visa garantir o atendimento da maioria de seus usuários. Para um plano de saúde existir, precisa depositar primeiramente pesadas quantias de dinheiro nesta “poupança”. Pela proposta da ANS, os descontos de abatimento poderiam variar de 25 a 75%, a depender da abrangência e complexidade dos programas de promoção de saúde e prevenção de doenças implantados. Uma contradição disto tudo é que não existe proposta semelhante para o SUS. Mas já é um começo. Pelo menos sabemos que existem pessoas sensatas no governo, que pensam em prevenção de doenças como fator determinante para um país saudável.

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Um conceito novo que pode mudar completamente o painel de saúde no Brasil, que já está em fase de estudo e implantação em países como o Canadá e Estados Unidos (EUA), seria a adesão das Empresas, de qualquer porte, ao processo de conscientização em saúde e prevenção de doenças, integrando saúde e produtividade.

Produtividade. Esta é a palavra chave de todo este processo de mudança em saúde, que pode integrar o Governo, Planos de Saúde e Empresas em prol de um único objetivo: melhorar a saúde e qualidade de vida dos trabalhadores e da população.

Já existem estudos bem consistentes, publicados em revistas de grande importância internacional, dizendo que a cada Euro investido em programas de promoção de saúde, você tem um retorno de investimento de cerca 3 ou 4 vezes o valor investido. Por que isto ocorre?

No dia-a-dia do trabalho, as empresas podem perder rendimento por conta de doenças de seus trabalhadores por dois motivos principais: absenteísmo (faltas, licenças médicas, afastamentos) e presenteísmo (perda de produtividade no trabalho, estando o trabalhador presente). A maioria das empresas não conseguem quantificar estas perdas, principalmente as causadas pelo presenteísmo, que são bem maiores. Se uma empresa investe em programas de qualidade de vida, tais perdas de produtividade são drasticamente reduzidas, gerando lucro e retorno de investimento.

Vamos a um exemplo: Imagine que determinado dia, o Sr. João, já não agüentando o estresse de sua empresa, acabou entrando em depressão, somados a outros motivos sociais e familiares. Apesar disso, por pensar ser forte e resistente, não procurou auxílio médico, trabalhando sobre esta nova condição de doença por aproximadamente 9 meses. No nono mês já não conseguia sair de casa para trabalhar. Procurou um médico que lhe prescreveu antidepressivos e uma terapia com uma psicóloga, dando também um atestado de 30 dias de afastamento do trabalho, podendo ser renovado caso não houvesse melhora. Neste contexto, o empregador terá a idéia de perder apenas 30 dias em termos de produtividade no trabalho, mas o que ele não sabe é que a depressão pode causar uma perda de produtividade no dia-a-dia que pode variar de 40 a 60% (é o presenteísmo), não calculado, não medido, subestimado.

Se o Sr. João fosse um vendedor, estaria perdendo cerca de 40 a 60% de possíveis vendas por dia, sem o empregador ter a mínima noção destas perdas. Costuma-se comparar que as perdas de produtividade por absenteísmo sejam apenas a ponta do iceberg. Abaixo da superfície estaria um imenso bloco de gelo, representado pelo presenteísmo.
Diante disto, as empresas teriam todos os motivos do mundo para investir em programas de saúde e qualidade de vida, mas não o fazem. Muitas até pagam planos de saúde, de forma integral para seus trabalhadores, atuando apenas de forma curativa, não preventiva. Isto não resolve o problema, trata-se apenas de uma medida paliativa. Raras são as empresas que acordaram para este problema. Aquelas que investem em saúde e produtividade já estão colhendo belos frutos, mesmo sem incentivos fiscais ou ajuda do Governo.

Talvez o Governo pudesse dar uma ajudinha para mudar toda esta situação.

Vejamos um outro exemplo: Uma empresa de 1000 funcionários, que fature cerca de 12 milhões de reais/ano, resolve implantar um programa de saúde integrado à produtividade, investindo 30 reais /funcionário / mês (bem mais barato que um plano de saúde), o que daria um total de 360.000,00 reais por ano. Segundo estudos científicos já realizados, poderíamos esperar um retorno de investimento na ordem de 3 a 4 vezes o valor investido (supondo que seja um ótimo programa de saúde e produtividade), gerando um retorno de investimento de até 1.440.000,00 reais por ano.

Supondo que o Governo cobrasse 15% de impostos sobre este valor, a empresa teria que lhe pagar 216.000,00 reais/ano. O programa total custou 360.000,00 reais. Veja aonde quero chegar: Se o Governo subsidiasse 50% do investimento no programa de saúde feito pela empresa, mesmo assim não sairia perdendo, ganharia novos 36.000,00 reais(216.000,00 – 180.000,00) de impostos ao ano. Seria um grande incentivo para investimento em saúde pelas empresas. Desse modo, o Brasil ganharia um poderoso aliado no combate e prevenção de doenças crônicas, reduzindo, mais uma vez, as despesas com o SUS e a Previdência Social.

Por conseguinte, os planos de saúde empresariais também sairiam lucrando na mesma proporção que as empresas. Façam os cálculos: é mais barato descobrir precocemente que um trabalhador seja portador de hipertensão arterial ou tratar de um Derrame Cerebral, em uma Unidade de Terapia Intensiva, ocasionado por uma hipertensão não previamente diagnosticada ou tratada adequadamente? Pelo visto, a parceria entre empresa, plano de saúde e Governo pode dar mais certo do que se imagina.

Tal incentivo fiscal poderia abranger também os planos de saúde que investissem em prevenção de doenças e qualidade de vida de seus usuários. Posso arriscar a dizer que se tais planos investissem de forma independente na qualidade de vida de seus usuários, dentro de uma empresa, já avistariam considerável retorno de investimento a médio e longo prazo.

Um projeto parecido com este já está em andamento, esperando aprovação no Senado americano. Mais uma vez os EUA saem na frente. Estão apostando pesado nesta nova idéia de incentivo à promoção de saúde nas empresas, já sabendo que o aumento da produtividade é certo.

Todos saem ganhando, o Estado, os planos de saúde, as empresas, os trabalhadores (T) e a sociedade.

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Uma vez implantado este modelo de parceria público-privada (PPP), as empresas formariam uma legião de trabalhadores (T) com consciência em saúde e hábitos saudáveis, orientados com relação à prevenção de doenças crônicas e controle de fatores de risco (tabagismo, hipertensão, obesidade, etc.). Isto é educação em saúde.

Dessa forma, os trabalhadores poderiam levar esta rica e importante sabedoria em saúde para seus familiares e amigos, dissipando para suas comunidades os resultados e ensinamentos do que chamamos de “Cultura Empresarial de Saúde”.

Autor: Dr. Henrique Braga
Email: henrique_jf@hotmail.com
www.unineuro.com

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2 Respostas

  1. Realmente um modelo para o futuro, que deve ser plantado no presente. Esta sim é uma verdadeira iniciativa público-privada, evidenciando os aspectos de integração e associação para um crescimento sustentável.

    Dr. José Hamilton

  2. Gostaria de uma cópia da lei que cria a produtividade e de saber quais são os profissionais que tem o direito de receber a produtividade do SUS.

    Grata,
    Candice Ellen

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